A cidade esquecida
Todo mundo diz que o boto, quando sai da água na forma humana, é um homem lindo. Mas o que eu conheci, não era. Tinha os olhos desiguais, um mais fechado que o outro, e também era baixo e manco. Claudicava fazendo um meio círculo ígneo no avançar energético e decisivo para onde quer que fosse. Explicou que em todo o resto ainda era igual aos outros membros de sua espécie. E que todos, como ele, eram calvos, quando mostrou, sem pudores, a cavidade endocraniana sob o chapéu. O furo na cabeça por onde esses animais respiram.
O orifício, na verdade, era sutil. Bem escondido pela mudança anatômica provocada pela transformação mágica. Poderia se passar por uma verruga. Heleno Moura, como se apresentou, também se diferenciava dos demais botos em outra característica que a própria história narrada revela: não se preocupava em esconder sua natureza mestiça, meio cetacea, meio hominídea. Falou com desprezo e ressentimento dos demais botos, todos belos, mas receosos em relação às suas identidades.
Conheci Heleno em uma viagem para a chácara de uma amiga que é fotógrafa, nos arredores de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros. Fui com um colega, também fotógrafo. Não sabíamos o caminho, nos perdemos, mas encontramos um povoado e paramos para pedir informação. O pneu furou. Trocamos. O estepe também furou e tivemos que esperar até o início da noite, quando o borracheiro que mora no local voltaria da casa de familiares em um quilombo 80km distante de onde estávamos.
Quem primeiro nos ajudou foi um menino de cabelos pretos, grossos e lisos. Ele parou para nos observar quando trocamos o pneu pela primeira vez. Não me importei. Quando saímos, alguns metros a frente, e o segundo pneu furou, o pequeno caiu na gargalhada. Uma gargalhada jocosa, mas gostosa. Pedimos ajuda, mas ele só parou de rir quando ofereci um doce de banana comprado para comer no caminho. Nos indicou um morador que supusemos ser um turco que morava na região, seu Iblis.
O homem de 1,6m, largo, bem vestido, de calças brancas impecáveis para um lugarejo sem pavimentação e com forte sotaque asiático nos indicou a casa do borracheiro e explicou a delicada situação. Pediu que esperássemos na Casa Maria, um bar-mercearia pequeno, com cara de boteco de beira de estrada, na saída do lugarejo. Fomos à pé e esquecemos de perguntar o nome do menino. Era por volta de 15h de um dia de seca goiana, em meados de setembro de 2012.
A proprietária, dona Madalena, nos atendeu. Uma mulher com mais de 40, com olhos profundos e um viço juvenil que nos estonteou. Ela sorriu ao perceber nosso encanto. Tomamos uma cerveja, começamos a discutir o incidente do pneu, Madalena colocou música, o assunto passou para a música, ela abriu um jornal e começamos a discutir política, e o papo só parou quando Iblis chegou com Heleno, o boto. O turco disse que o amigo nos acompanharia e que era muito importante estarmos com ele naquela região.
O próprio Heleno puxou o assunto mágico. Duvidamos, mas ele era convincente e também apresentou as provas. Tomou um copo de cerveja e expeliu o líquido pelo orifício craniano, por exemplo. Falou na língua dos botos e depois nos explicou que sua aparência física era consequência de ter nascido no Lago Paranoá. Que os botos sempre ficam marcados quando nascem em reservatórios artificiais. Principalmente quando o reservatório é jovem, como no caso do espelho d’água brasiliense.
Isso, Heleno garantiu, não o impediu de seguir sua natureza mágica. Mas, em algum momento, ele se cansou e se mudou para o Goiás, onde, disse, havia tempo que não aparecia um de sua espécie. Estava em perigo quando seu Iblis e Maria Madalena o ajudaram. Jurou que não fazia filhos pela região, mas que fez alguns entre as estrelas do rock candango. Ele se orgulhava de uma das filhas, uma moça linda, modelo, que ainda mora na capital federal. Disse que aquele povoado era um bom lugar para gente como ele e pediu que Afrânio fizesse umas fotos, o que meu amigo e copiloto prontamente atendeu.
Não vimos o tempo passar, tamanha a animação do papo, que sem querer transformei em uma extensa entrevista sobre almas penadas, a Cuca, o Saci e outros integrantes misteriosos da criptozoologia brasileira, brasiliense e goiana. Em algum momento, seu Ilblis retornou e entrou na conversa até que o borracheiro nos procurasse. Sério, o homem alto e esguio de olhos muito poderosos e redondos trabalhou rápido e nos despachou o quanto antes. Sequer cobrou pelo serviço. Agradecemos e fomos embora não em condições de dirigir.
Chegamos à chácara a tempo do churrasco com os colegas do jornal, contamos a aventura e, no domingo à tarde, partimos para Brasília. Afrânio pediu para visitarmos dona Madalena uma última vez. Disse que não sabia porque, mas as fotos que ele fez ficaram todas irreconhecíveis. Borrões multicoloridos que ele me mostrou no display da máquina. Havia algo de abstrato, que a mim lembrou a cerimônia da cavalhada, embora eu nunca tivesse acompanhado uma.
Fizemos o mesmo caminho da chácara para o povoado, mas não o encontramos. Na verdade, passamos mais de uma vez por umas ruínas não muito antigas que pareciam em algo com o lugar que buscávamos. Depois de muito rodar, sempre parando nas mesmas ruínas, desistimos. Foi então que lembrei que não tínhamos perguntado o nome do menino que nos ajudou. “Eu ouvi seu Iblis falar com ele”, respondeu Afrânio enquanto seguíamos em direção ao pôr do sol. “Acho que chamou de Erê.”


