Um estranho edifício
O amor de Antônio do Carmo, o Toni, era um prédio perto da esquina da principal com a rua do clube. Não que ele amasse um prédio. O amor dele era o prédio. Era através da construção que ele experimentava as maravilhosas e terríveis sensações que se pode viver ao amar alguém ou algo. Ele não sabia disso, lógico. Para aquele homem, tudo parecia operar normalmente. No entanto, cada alegria, cada decepção, cada encontro, cada perda, cada chegada, cada partida, seus níveis de profundidade, sua dependência emocional aconteciam através de uma profunda conexão com o ordinário prédio de dois pavimentos de número 27.
A edificação abrigava uma loja de calçados no térreo e uma sobreloja com duas entradas que funcionava como depósito, mas já foi um dormitório para funcionários que perderam o ônibus no fim do expediente e um apertado, mas satisfatório, apartamento sublocado. Pelo menos quatro crianças foram feitas naquele segundo piso em suas diferentes encarnações. Os locatários tinham boas relações com a locadora, Core Imobiliária. A documentação e os impostos estavam em dia. Mas, em uma pesquisa de mercado, descobriu-se que nenhuma das pessoas que alugaram o espaço tiveram qualquer contato com o proprietário legal do imóvel, que definitivamente não era Toni.
Morador da cidade, ele mesmo já tinha passado por ali diversas vezes. Mas nunca se atentou para a construção responsável por uma parte muito importante dos seus sentimentos. Não é que fosse uma construção para se notar. Não muito nova, atendia às necessidades básicas para as quais fora construída, inclusive as de Toni, e custava, como outras vizinhas, os absurdos que aluguéis comerciais custam em área central. E sofria, como as outras, as agruras que o tempo, as intempéries e o progresso imprimiam na região. Até que apareceram as rachaduras.
À época, a loja de calçados ainda funcionava no local, mas todo o comércio estava fechando ou se mudando. Isso acontecia por efeito de shoppings e outras pressões urbanas e sociais. O número de pessoas em situação de rua aumentou, o uso de drogas na região, também. Era questão de tempo até aquele estabelecimento fechar as portas. No mesmo período, Toni entrava no terceiro ano de terapia com progressos que o faziam sentir-se muito satisfeito consigo e com a nova etapa de vida que entrava. Tudo parecia bem quando ele foi acometido por uma crise de ansiedade esmagadora que pensou desconhecer. Ainda viria a descobrir que era uma velha amiga.
Foi um período difícil, que demandou o início de um novo tratamento, dessa vez com um psiquiatra e o uso de medicação antidepressiva e antipsicótica, para ajudá-lo a dormir, no segundo caso. Pensando a respeito, examinando a própria vida foi que começou a entender um pouco de como as formas do passado se agarram ao futuro. Havia compreendido, tempos antes da crise, sobre como se comportara de forma infantil em diversos momentos da vida. Que fizera isso como uma forma de protesto inconsciente, para que o mundo pagasse pelos sofrimentos que enfrentou na infância. Preocupava-se muito mais com o presente e com o futuro e já não delegava mais suas necessidades e responsabilidades ao destino.
“Se a minha vida é um guardanapo amassado, então farei dele uma obra de arte”, repetia para si. Atingido, então, pela terrível tempestade labiríntica, sentiu-se pequeno, frustrado e confuso. Como podia, mais uma vez, puxar o tapete debaixo de si? Estava indo tão bem! Estava cansado de ser o próprio inimigo. Por que isso agora? Que terrível dédalo era aquele? O que se operava em seu coração? Em meio às reflexões, sem que tomasse conhecimento, a loja de calçados finalmente fechou. A retirada dos tapetes e móveis revelou um chão antigo, descolorido pelo tempo, mas mais belo do que se poderia prever.
Ao mesmo tempo e a muito custo, Toni compreendia que vivia um estranho oroborus. Se reinventava, olhava para o futuro, e carregava em si uma estrutura construída em um passado distante que exercia, no presente, uma força que ele nunca foi capaz de compreender até então. “Aprendemos a amar na nossa infância”, comentou com um amigo. “Na maioria das vezes, é assim que amamos durante toda a nossa existência. Sem se perguntar por que ou se devemos mudar.”
Lamentava a própria dependência emocional, a vigilância constante que operava havia tanto tempo para controlar os humores das pessoas, lamentava o esquecimento de si próprio em lugar do outro, de relações passadas, do último emprego, da última instituição que integrou, de certas amizades… Enxergava melhor os momentos em que sofrera com ansiedade e não cuidara de si. Ninguém estava lá para ver quando as vigas sombrias do prédio número 27 perto da esquina da principal com a rua do clube deram os primeiros sinais de ruína. Algumas mudanças acontecem de forma silenciosa, por dentro e por fora.
Toni compreendeu como fora uma pessoa difícil e controladora em diversas modalidades de relacionamentos em toda a sua história. Compreendeu como repetia esses antigos comportamentos para dar a manutenção a um inferno conhecido em detrimento de um paraíso estranho que poderia, ou não, esperá-lo para além da escuridão. Como fazia isso de forma quase inconsciente. E a despeito de todos os gritos e forças que a torção descontrolada dos seus sentimentos infringiam na ruptura, ele estava determinado a caminhar para as trevas. Pernas tremendo, mãos suadas, nenhuma certeza à frente a não ser a necessidade de mudar, de deixar para trás aquele mundo em que pouco se amava.
Precisava refazer o coração. Um edifício de amor e ternura, de alguma forma livre dos antigos vícios da dor e do peso do concreto armado da angústia que o passado trazia. Queria amar diferente. E queria que fosse rápido, mas via o tempo se estender como um corredor em um pesadelo. Uma equipe de repórteres acompanhou a Defesa Civil em uma visita ao centro da cidade. Diversas edificações estavam condenadas e seriam derrubadas. O procedimento dependia, é claro, de um longo processo burocrático pela força estatal. O pequeno prédio de número 27 estava entre eles. Toni seguiu com a terapia, as idas ao psiquiatra e os remédios. “Enquanto fosse necessário”, comprometeu-se. Comprometeu-se com aquele trabalho de reforma pesada, demolição e reconstrução de si e toda a burocracia que pudesse haver no caminho. Na vida, dificilmente o tempo dos desejos acompanha o tempo necessário.



Perfeito.
Não tenho saudades do meu edifício demolido… está no passado. Amém🥊